INEP, ENADE
questão 21 de 33, número 22 na prova
TEXTO I
Diabo — [...] Embarca — ou embarcai... que haveis de ir à derradeira!
Mandai meter a cadeira, que assim passou vosso pai.
Fildalgo — Quê? Quê? Quê? Assim lhe vai?!
Diabo — Vai ou vem! Embarcai prestes!
Segundo lá escolhestes, assim cá vos contentai.
Pois que já a morte passastes, haveis de passar o rio.
Fildalgo — Não há aqui outro navio?
Diabo — Não, senhor, que este fretastes, e primeiro que expirastes me destes logo sinal.
Fildalgo — Que sinal foi esse tal?
Diabo — Do que vós vos contentastes.
Fildalgo — A estoutra barca me vou.
Hou da barca! Para onde is?
Ah, barqueiros! Não me ouvis?
VICENTE, G. Auto da Barca do Inferno. Disponível em: Acesso em: 31 maio 2020 (adaptado).
TEXTO II
Brooklyn Museum. HOMER, W. (American, 1836-1910). The Boatman, 1891. Available at: https://www.brooklynmuseum.org/ opencollection/objects/48240. Access on: 31 may 2020 (adapted). 28 LETRAS - PORTUGUÊS E INGLÊS
TEXTO III
Encomendou a canoa especial, de pau de vinhático, pequena, mal com a tabuinha da popa, como para caber justo o remador. Mas teve de ser toda fabricada, escolhida forte e arqueada em rijo, própria para dever durar na água por uns vinte ou trinta anos. Nosso pai entrou na canoa e desamarrou, pelo remar. E a canoa saiu se indo — a sombra dela por igual, feito um jacaré, comprida longa. Nosso pai não voltou. Ele não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não saltar, nunca mais [...] Sou homem de tristes palavras. De que era que eu tinha tanta, tanta culpa? Se o meu pai, sempre fazendo ausência: e o rio-rio-rio, o rio — pondo perpétuo. Eu sofria já o começo de velhice — esta vida era só o demoramento. Eu mesmo tinha achaques, ânsias, cá de baixo, cansaços, perrenguice de reumatismo. E ele? Por quê? Devia de padecer demais. De tão idoso, não ia, mais dia menos dia, fraquejar do vigor, deixar que a canoa emborcasse, ou que bubuiasse sem pulso, na levada do rio, para se despenhar horas abaixo, em tororoma e no tombo da cachoeira, brava, com o fervimento e morte.
ROSA, J. G. A terceira margem dorio. In: ______. Ficção completa: volume II. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, p. 409-413 (adaptado).
Considerando as informações apresentadas nos textos I, II e III, avalie as afirmações a seguir.
- I. O texto I apresenta um trecho de uma peça teatral do humanismo português, isto é, período de transição entre a cultura da Idade Média e do Renascimento, e menciona três elementos que são importantes para a compreensão da morte como ritual de travessia.
- II. Os três textos se comunicam, e no texto II há uma aquarela com lápis de grafite, desenhado sobre papel grosso texturizado, uma representação surrealista das vanguardas artísticas europeias, que surgiu em Paris no início do século XX.
- III. O texto III apresenta trecho de um conto, em prosa coloquial, considerado obra literária do contexto modernista brasileiro, cujo título não revela que terceira margem é esta, mas indica que o pai segue rumo a um caminho desconhecido.
- IV. As informações apresentadas nos textos tratam de manifestações artísticas dos gêneros conto, arte pictórica e peça teatral, todas pertencentes ao mesmo contexto de manifestação artística e literária.
É correto apenas o que se afirma em
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