INEP, ENADE
questão 28 de 33, número 30 na prova
TEXTO I
Quando Emília voltou para onde se achavam os meninos, viu-os em preparativos para o regresso. Estavam com uma fome danada.
— E o Visconde? — indagou ela. — Apareceu?
— Está aqui, sim — respondeu Pedrinho —, mas nega a pés juntos que haja furtado o Ditongo. Emília aproximou-se do velho sábio, que tinha uma bochecha inchada de dor de dente. — Então, onde está o Ditongo, Senhor Visconde? — interpelou ela, de mãozinha na cintura e olhar firme. O pobre fidalgo pôs-se a tremer, todo gago.
— Eu. . . eu. . .
— Sim, o senhor mesmo! — disse Emília com vozinha de verruma. — O senhor raptou o Ditongo Ão e escondeu-o em qualquer lugar. Vamos. Confesse tudo.
— Eu. . . eu. . . — continuava o fidalgo, que não sabia lutar com a boneca.
Emília refletiu uns instantes. Depois agarrou-o e fê-lo abrir a boca à força. O Ditongo furtado caiu no chão. . . — Vejam! — exclamou Emília, vitoriosa. — Ele tinha escondido o pobre Ditongo na boca, feito bala. Que vergonha, Visconde! Um homem da sua importância, grande sábio, ledor de álgebra, a furtar Ditongo. . . — Eu explico tudo — declarou por fim o Visconde, muito vexado. — O caso é simples. Desde que caí no mar, naquela aventura no País da Fábula fiquei sofrendo do coração e muito sujeito a sustos. Ora, este Ditongo me fazia mal. Sempre que gritavam perto de mim uma palavra terminada em Ão, como Cão, Ladrão, Pão e outras, eu tinha a impressão dum tiro de canhão ou dum latido de canzarrão. Por isso me veio a ideia de furtar o maldito Ditongo, de modo que desaparecessem da língua portuguesa todos esses latidos e estouros horrendos. Foi isso só. Juro!
Emília ficou radiante de haver adivinhado.
— Eu não disse? — gritou para os meninos. — Eu não disse que devia ser isto? E para o desapontadíssimo fidalgo:
— Pegue o Ditongo e vá botá-lo onde o achou. Você não é Academia de Letras para andar mexendo na língua. . . Meia hora mais tarde já estavam todos no sítio, contando ao Burro Falante o maravilhoso passeio pelas terras da Gramática.
LOBATO, M. Aritmética da Emília. In: Emília no país da gramática. Círculo do Livro, 1987, p. 137-138 (adaptado).
TEXTO II
Se de todas as palavras do dicionário desaparecer o ‘h’[...] A “hora”, transformada em “ora”, pede demissão do relógio e vai trabalhar na gramática, como conjunção ou advérbio.
RODARI, G. Gramática da fantasia. Tradução de Antônio Negrini; direção da coleção de Fanny Abramovich. Novas buscas em comunicação; v. 11, São Paulo: Summus, 1982, p.37 (adaptado).
Considerando a prática docente e as informações apresentadas nos textos, avalie as afirmações a seguir.
- I. Os textos permitem a exemplificação de figuras de linguagem, como metáfora e prosopopeia.
- II. Os fragmentos podem ser utilizados para a construção de propostas que envolvam o ensino de ortografia e de sintaxe.
- III. Os excertos apresentam a gramática de forma lúdica e permitem a criação de outras histórias sobre classes de palavras, por exemplo.
- IV. As passagens abordam os mecanismos fonológicos e léxico-gramaticais de forma descontextualizada à realidade do estudante brasileiro.
É correto apenas o que se afirma em
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