Prova Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Catarinense (IFC) — Administração – Fraiburgo 2026 (FUNDATEC)
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FUNDATEC, Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Catarinense (IFC)
questão 2 de 58
Texto de apoio
O alívio de não ser tão importante Por Pedro Guerra Kuman
- 01No início dos anos 2000, um estudante entrou numa sala cheia usando uma camiseta
- 02considerada constrangedora. Não era provocação nem descuido: era parte de um experimento
- 03de psicologia social. Depois de alguns minutos entre olhares dispersos e conversas paralelas,
- 04perguntaram a ele quantas pessoas haviam reparado na vestimenta. “Metade da sala”,
- 05respondeu confiante. Todavia, na prática, pouco mais de um quinto percebeu.
- 06Lembrei-me dessa história dias atrás, quando um amigo me disse: nós não somos tão
- 07importantes assim.
- 08Nós, pessoas de pensamento acelerado, tendemos a acreditar que a catástrofe é uma
- 09certeza que eventualmente vai nos encontrar. Antecipamos cenários inexistentes, ensaiamos
- 10diálogos que nunca existirão, prevemos um enredo que, de tanto ninguém querer ver, ele nem
- 11mesmo acontece. Gostamos de acreditar que somos protagonistas da nossa própria história —
- 12e, em alguma medida, somos mesmo. A questão é que, na vida dos outros, na maioria das
- 13vezes, a gente é só figurante.
- 14A Psicologia chama isso de “efeito holofote”: a tendência de acreditar que há sempre um
- 15foco apontado para nós, por isso superestimamos o quanto os outros estão nos julgando e nos
- 16assistindo. E de fato: a vida é uma eterna performance. Porém, muitas vezes esquecemos que
- 17nem sempre seremos o centro da plateia alheia. Não porque sejamos irrelevantes ou porque
- 18ninguém se importe em absoluto, mas porque cada um está ocupado demais tentando
- 19administrar as próprias dores.
- 20Na sociedade da vitrine, nos acostumamos a sermos observados o tempo inteiro. Há
- 21reação, há métrica — há sempre algum número medindo nossa existência. As redes sociais
- 22reforçaram essa sensação de palco permanente. Sem perceber, passamos a buscar confirmação:
- 23eu quero ser aceito para não correr o risco de ficar de fora. Curioso como, em pleno século 21,
- 24ainda reagimos como se estivéssemos tentando garantir um lugar na fogueira da caverna.
- 25Para mim, a frase do meu amigo foi como um lembrete: nem todo mundo está interessado
- 26no que a gente veste, escolhe fazer, diz ou em como nos desempenhamos. É quase mágico esse
- 27momento em que percebemos o alívio de não ser tão importante. Funciona quase como uma
- 28redenção, um desprender-se. É o local onde se pode errar em paz. Afinal, se o mundo não para
- 29por causa dos nossos constrangimentos, ele certamente também não irá parar por conta dos
- 30nossos fracassos. E, se repararmos bem, veremos que há uma espécie de humildade nisso. É a
- 31constatação de que o mundo é grande demais para girar em torno dos nossos tropeços. E que,
- 32ainda assim, seguimos pertencendo a ele.
- 33Talvez o erro seja acreditar que precisamos ser protagonistas o tempo todo. Há uma
- 34liberdade silenciosa e extraordinária em simplesmente aceitar o papel de coadjuvante vez que
- 35outra. Para todos os efeitos, basta estar. Basta aprender a ser espectador. No fim, quem sabe a
- 36vida não esteja nem aí para cada malabarismo das nossas performances. Ela só quer que a gente
- 37esteja presente e que saibamos existir sem tanto esforço. (Disponível em: https://gauchazh.clicrbs.com.br/pioneiro/colunistas/pedro-guerra/noticia/2026/03/o-alivio-denao-ser-tao-importante-cmmdhxr1b01bg016a3bk8hyoi.html – texto adaptado especialmente para esta prova).
Considerando o exposto pelo texto, analise as assertivas a seguir:
- I. O texto classifica-se como crônica, uma vez que o autor parte de uma cena cotidiana particular para estabelecer uma reflexão atrelada à contemporaneidade, empregando linguagem acessível e trazendo exemplos de eventos do dia a dia.
- II. O autor entende que não devemos gastar nossa energia para satisfazer o que acreditamos ser a expectativa dos outros a nosso respeito, como se todos os holofotes estivessem sobre nós, já que a maior parte das pessoas estão tão imersas na sua própria existência que sequer percebem a nossa.
- III. A conclusão final do autor vai de encontro ao que muitos buscam na sociedade, que ele associa a uma vitrine. Para ele, sermos ignorados é um exercício de desprendimento, pois nos leva a perceber que a vida segue seu fluxo independentemente de nossos percalços particulares.
Quais estão corretas?
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